Quantas vezes diante de fatos dolorosos em nossa vida, ou mesmo
quando nos deparamos com a ação do mal no mundo, lançamos a Deus
um apelo em busca de respostas que nos satisfaçam, como:
"Onde
está Deus que não me ajuda?!"
"Por que Deus não impede o mal?!"
Dias atrás conheci um senhor muito simpático que, sentado no banco
de uma rodoviária, desenhava - e muito bem - o Imaculado Coração
de Maria. Era um grafiteiro autodidata que havia separado de sua
esposa e, morando na rua, ganhava o pão de cada dia com o seu
talento.
Conversando com ele, percebi que era uma pessoa que trazia
dentro de si uma grande sede de Deus, da Verdade e do Bem, mas ao
mesmo tempo, tinha o coração marcado pelo sofrimento, e ferido pela
mágoa, angústia e indignação.
Ele fez estas mesmas perguntas a
respeito do (aparente) “silêncio de Deus” em face de tantos
fatos injustos que sofremos ou presenciamos.
Tentei explicar a ele que Deus criou tudo bom, mas o próprio homem,
afastando-se de Deus e de Sua lei, caiu nos laços do demônio e,
utilizando mal a sua liberdade, acabou causando danos a si e ao
próximo.
Mas... logo meu ônibus chegou e tive que partir. Deixei-o,
pesarosa, pois ele ainda não havia se convencido que Deus não
abandonou o ser humano... pois amou tanto o mundo que lhe deu seu
Filho Único, Jesus Cristo, como Redentor (cf. Jo 3,16).
Fiquei a pensar em tantas pessoas que perdem a fé porque se deixam
levar por tais questionamentos.
Então, encontrei em um livro uma
passagem que responde a esse paradoxo do mal.
Nele dizia que Deus não
impede o mal e a ação de satanás porque,
“tendo criado os homens
e os anjos livres, deixa que ajam conforme a sua natureza inteligente
e livre.
No fim, Ele fará as contas e dará a cada um o que
merece... A parábola do joio e do trigo é bastante clara a esse
respeito: quando os servos pedem que se retire o joio, o patrão se
recusa a fazê-lo e diz que será preciso esperar o tempo da
colheita.
Deus não renega as suas criaturas, mesmo quando elas se
comportam mal. Se impedisse a sua ação, a criatura seria julgada
antes que tivesse a possibilidade de expressar-se integralmente.
Somos seres finitos, nossos dias na terra estão contados, e por isso
não gostamos dessa paciência de Deus.
Temos pressa em ver o bem
premiado e o mal punido. Deus espera, permitindo que o homem tenha
tempo de se converter, servindo-se muitas vezes também do demônio
para que o homem possa provar que é fiel a seu Senhor”
(Leite,
Silvana C. - Para falar de Anjos; Loyola).
Na verdade podemos perceber que cada coração humano que grita: “Até
quando, Senhor?!”, ainda não compreendeu o Mistério da Economia
da Salvação.
Isso não significa, é claro, que devemos cruzar os
braços e deixar que o sofrimento, a doença, o desemprego, a
injustiça, etc. progridam.
De modo algum! Devemos agir, sim, e
buscar sempre o que é justo e direito, o bem, a paz, a dignidade, a
verdade e a ordem; mas, jamais devemos nos revoltar por
acontecimentos que “temporalmente” permanecem sem respostas.
Com certeza você conhece ou já ouviu falar de pessoas que, diante
de um doloroso quadro de uma doença incurável, por exemplo, dão um
belíssimo testemunho de fé e amor!
E um dos melhores modelos que
temos é a Santíssima Virgem Maria que, junto à Cruz, vendo seu
filho sendo torturado e morto injustamente, permaneceu de pé,
revelando ao mundo que nosso sofrimento, unido ao de Cristo, torna-se
corredentor (conf. Jo 19, 25 e Col 1, 24).
Interessante que aquele grafiteiro da rodoviária desenhava o
Imaculado Coração de Maria. Lembrei-me de que em Fátima, Nossa
Senhora afirmou: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”
Maria anunciava ali a vitória de todos que, crendo no amor de Deus,
não se esmorecem diante das tribulações ou injustiças causadas
direta ou indiretamente pelo pecado, pelo mal, mas com firme
esperança no amor de Deus sabem que “todo o que nasceu de Deus
vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”
(1Jo 5,4).
Que possamos também ser portadores desta fé, desta esperança,
n'Aquele que, por nosso amor, humildemente baixou até este vale de
lágrimas e nos deu uma Mãe que intercede junto a Ele por nós.
Salvou-nos por Sua morte, e ressuscitou para nos dar a Vida...
preparou-nos um lugar (conf. Jo 14, 2) onde “enxugará toda lágrima
de nossos olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem
dor” (conf. Ap 21,4). Deus é Bom!